sábado, 19 de janeiro de 2019

Eduardo do Olímpia F.C. morreu jogando pelo Operário atingido por uma pedrada em Ponta Porã


Eduardo César de Campos tinha 30 anos, fazia apenas o seu quarto jogo com a camisa alvinegra. Nascido em Rolândia (PR), iniciou a carreira no interior de Minas Gerais, mas foi no paulista que ganhou destaque nas divisões inferiores, atuando por clubes como XV de Piracicaba, Fernandópolis e Olímpia F.C.. No Operário a 38 dias, por empréstimo, deixou mulher e duas filhas.

Contaremos agora a história de Eduardo, lateral-direito, que morreu em campo após ser atingido por uma pedrada no peito, na altura do coração. Após fazer apenas o seu quarto jogo com a camisa alvinegra. Essa foi considerada a maior tragédia ocorrida no esporte de nosso Estado.

Corria o segundo semestre de 1992 e junto dele nosso Estadual naquele ano, com um favorito absoluto: o Operário, campeão no ano anterior, dono de uma base sólida e sem a ameaça do maior rival, o Comercial, que não disputou aquela edição alegando problemas financeiros.

Parecia ser um caminho tranquilo. Mas o espaço deixado pelo Colorado fez com que os times do interior quisessem aproveitar a chance para se tornarem o maior oponente do Galo. Mas coisas sairiam de controle, como se verá.

TRAGÉDIA

Após o término da última fase de classificação, a tabela apontou o Pontaporanense como o rival do Operário nas semifinais. O confronto, considerado tranquilo até então, parecia ainda mais sem percalços após a calma vitória no duelo de ida, no Morenão, por 2 a 0.

Mas o duelo de volta, disputado no Estádio Aral Moreira, em Ponta Porã no dia 30 de novembro daquele ano, no entanto ficaria marcado para sempre no futebol sul-mato-grossense.

O clima era de tensão. Os torcedores da cidade fronteiriça levaram a sério a decisão e, em um primeiro tempo de fortes emoções e, após um primeiro tempo equilibrado, com direito ao goleiro operariano Marcílio defendendo pênalti marcado para os mandantes, o descontrole tomou espaço na etapa final e com as chances cada vez se rareando mais para os dois gols necessários para tirar a vaga do time da Capital.

A tragédia começou logo aos 17 minutos. Marcílio, herói do Mais Querido, foi atingido pela primeira garrafa jogada ao campo. A torcida entendeu que era cera. E o clima esquentou. Dentro de campo, as entradas passaram a ser mais ríspidas. Fora dele, cada vez mais objetos jogados no gramado.

O estopim definitivo veio aos 30 minutos. Gonçalves, do Operário, e Marquinhos, do Pontaporanense, trocaram agressões e foram expulsos, dando início à invasão de campo e briga generalizada.

Os jogadores operarianos corriam para o vestiário tentando se abrigar da violência. Mas os torcedores arremessavam objetos na tentativa de feri-los. Conseguiram. Eduardo foi atingido quando botou o seu pé direito na escadaria do vestiário. Caiu sem sentidos, foi arrastado pelos companheiro de time pelas pernas e socorrido a um pronto-socorro da cidade, onde já chegou sem vida.

Mas a barbárie não parou por ai. Repórteres e cinegrafistas apanharam com socos, chutes e pauladas. Cabines de imprensa foram apedrejadas. E os 50 policiais militares designados para a segurança do jogo foram insuficientes diante do caos instaurado.

A notícia da morte de Eduardo destruiu o emocional do Operário. Trancados no vestiário, jogadores choravam copiosamente. O mordomo João Garcia, um ícone do Galo e mais antigo funcionário do clube na ocasião, desmaiou com um princípio de infarto.

CONSEQUÊNCIAS

A inevitável repercussão da morte de um jogador em campo por motivação violenta ganhou manchetes por todo Brasil.

O Correio do Estado acompanhou o desenrolar dos fatos e logo no dia seguinte à barbárie a polícia agiu. Dois torcedores de Ponta Porã que teriam antecedentes criminais foram identificados nos vídeos do jogo (a partida foi transmitida ao vivo) agredindo os operarianos. Até mesmo um PM à paisana, que estaria de folga e bêbado, foi identificado com um revólver em punho ameaçando os adversários e abrindo o alambrado para a invasão da torcida.

Na esfera investigativa, promotores e até juízes se uniram para determinar culpas e responsabilidades, da PM pelo efetivo reduzido, do clube pela omissão, da Polícia Civil por liberar os poucos torcedores detidos, e até da própria Federação Sul-mato-grossense.

Prova maior do choque causado pelo caso foi a atitude de cidadãos de Ponta Porã que não estavam no jogo e foram ao hospital consolar jogadores e torcedores do alvinegro feridos, além da família de Eduardo, hospedada gratuitamente na cidade para resolver as questões quanto à liberação do corpo.

Os dias que se seguiram foram de dúvidas e incertezas. Em um primeiro momento, o elenco não queria mais jogar a competição. O então presidente Osvaldo Durões e o técnico Sílvio Elite anunciaram que acatariam a decisão do grupo, que depois de muito debate, optou por seguir no campeonato.

Sem nenhuma condição psicológica, o Operário perdeu a disputa do título para o Nova Andradina, pela primeira vez campeão estadual, em campanha histórica comandada pelo ídolo Nilson Aragão, chamado de 'Endiabrado' pelos torcedores e artilheiro daquela edição com dez gols marcados. Foi o único título do clube interiorano, até hoje na história.

De concreto sobre a selvageria, apenas a interdição do Estádio Aral Moreira, cuja liberação só viria no início de 1994, justamente o ano em que o clube local conquistaria seu único título estadual. Os acusados acabaram inocentados por falta de provas dos crimes mais pesados, como o assassinato.

Pouco adiantou as boas intenções da Pontaporanense, que divulgou uma histórica nota de pesar, em que lamentava as constantes aparições da cidade nas manchetes nacionais por causa da violência. O objetivo foi cumprido para parte da torcida do Galo, que até hoje trata a cidade fronteiriça com desprezo pelo incidente e que torna os já não mais realizados jogos entre os clubes de alto risco e grande atenção das autoridades.

CONFIRA A COBERTURA COMPLETA DO FATO:


 

Nenhum comentário: