domingo, 25 de março de 2018

Facebook e a guerrilha cyber-tecnológica - Uma ameaça à legitimidade eleitoral

É estarrecedora a confirmação de que a empresa Cambridge Analytica capturou informações pessoais de cinquenta milhões de usuários do Facebook, usando-as para manipular a opinião pública em benefício da eleição de Donald Trump.

É gravemente perturbadora a informação de que a consultoria britânica já tem um pé no Brasil, onde certamente executaria o mesmo esquema de manipulação eleitoral, caso não tivesse sido desmascarada pela mídia.

Graças ao jornalismo competente, sabemos agora, pela voz de seus próprios executivos, flagrados em confissão de delito, que a consultoria já usara os mesmos métodos inescrupulosos em eleições no México e na Malásia, e até na consulta popular que levou ao “Brexit”, a saída do Reino Unido da União Europeia.

Se burlaram até os sofisticados sistemas de controle britânico e norte-americano, desviando dados pessoais do Facebook, para engendrar, no caso dos Estados Unidos, um gigantesco campo aberto, de cinquenta milhões de usuários suscetíveis a informações manipuladas a favor de Trump, que gigantesco estelionato não provocariam no Brasil, se é que já não o fizeram em eleições passadas?

Não podemos incorrer na ingenuidade de supor que o desmascaramento da Cambridge Analytica elimina o risco de nefastas manipulações nas próximas eleições, através do uso inescrupuloso das mídias sociais.

Em primeiro lugar, porque, no Brasil, apesar dos muitos esforços e de um marco regulatório adequado, a Internet como um todo é ainda um território tão inseguro e vulnerável quanto nossas fronteiras físicas.

Em segundo lugar, porque seria insensato acreditar que a Cambridge Analytica teria o monopólio do uso inescrupuloso de mídias sociais para manipular eleições.

Não há dúvida de que similares ou congêneres da Cambridge estão, neste momento, refinando seus métodos, para oferecer serviço sujo que, embalado em pesquisas de vanguarda, aparentemente limpas, camufla manipulações com potencial para corromper processos eleitorais, comprometendo o sistema democrático.

Comparadas à escala e à sofisticação metodológica adotadas pela Cambridge Analytica para direcionar o voto popular, as repulsivas fake news, em que pesem os seus gravíssimos danos, seriam meras bombas juninas diante de artefatos de destruição em massa.

E o mais trágico e doloroso é que sempre haverá interessados nesses artefatos, razão pela qual não é exagero afirmar que em risco está a própria legitimidade eleitoral no sistema democrático.

E como Democracia não se concebe sem eleições “livres” e diretas, o fato envolvendo a Cambridge Analytica e Facebook tem potencial para minar e corroer a própria essência de um regime democrático.

Os Estados nacionais devem se unir para adotar urgentes medidas visando a prevenção e repressão desta assustadora manobra que se constitui, a meu ver, como a primeira demonstração efetiva de guerrilha cyber-tecnológica do século XXI.

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