domingo, 4 de fevereiro de 2018

O destruidor de debates

Refletindo aqui sobre o humor dos grupos de debates no zap-zap, afinal para alguma coisa esse “trem” deve ser útil, além da costumeira serventia a que lhe atribuem, eis que nesta mania de observar passei a perceber um novo perfil de membro destes infindáveis grupos que me incluem com autoritária gentileza: o destruidor de debates.

Trata-se de uma espécie interessantíssima e, sob a ótica comportamental, muito instigante para observação e análise.

O destruidor de debates tem com a verdade uma relação feudal: ele é o senhor de todas as terras. Não há margem para questionar o Senhorio. A terra é dele, o céu é dele, o vento é dele, a comida é dele, a vida é dele. O resto é vassalo, inclusive e sobretudo a verdade.

Detentor da totalidade do conhecimento universal, o destruidor de debates envenena o terreno onde possa surgir qualquer questionamento ao seu poder absoluto de sentenciar irrecorrivelmente sobre tudo e todos.

Nos debates, ele reina acima de qualquer imaginária divindade e ai de quem insinuar vida inteligente em seus domínios, pois neste caso o pobre coitado vira alvo e logo é dizimado com insinuações, intrigas, francas demonstrações de antipatia e isolamento.

O destruidor de debates não se interessa pelo debate, aqui entendido como processo argumentativo que pressupõe espíritos desarmados, desapego a dogmas e franco compromisso com o livre curso das ideias para se alcançar a versão mais próxima do consenso.

Na realidade, o destruidor usa os debates para alcançar outros objetivos: ele quer ser notado, ele precisa ser visto, ele não consegue conviver consigo mesmo, ele tem fome e sede de afirmação da sua individualidade. A verdade, as ideias, o debate em si são apenas detalhes de sua infrene insegurança.

O destruidor de debates não admite estar errado, mas não porque acredita que seu argumento é verdadeiro e sim porque o argumento é dele. Só por isso. Aliás, sempre o melhor partido é o dele; o melhor candidato é o dele; o melhor time é o dele; a melhor ideia é a dele.

Ele, o destruidor de debates, é, no fundo, uma criança mimada, medrosa, cheia de recalques e frustrações que só aprofundam o pavor que sente diante do vazio que o atormenta. Vive aterrorizado com a possibilidade de ser derrotado em uma discussão, por isso que diante desta ameaça, agride o interlocutor buscando enfraquecer o argumento.

Observem com atenção o seguinte: qualquer que seja o grupo, lá está ele, o destruidor de debates. Há grupos que abrigam vários deles e - dia sim, dia também - o cheiro de queimado quase sai pelo celular tantos os curto-circuitos que ocorrem nesta fogueira de vaidades.

Há mais de cinco anos frequentando (muito mais lendo que escrevendo) centenas destes grupos de debates no zap, nunca li esta frase: “Realmente, o seu argumento me convenceu. Eu estava errado. Obrigado por me fazer ver esse outro lado da questão”.

Debater uma ideia deveria ser uma chance de aprendizado para que o ato de convencer (vencer junto) fosse o ápice da vitória de todos do grupo.

Mas pelo que vejo, ouço e leio nestes grupos, o destruidor de debates ainda reinará por algum tempo.

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