sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Das insignificâncias que um dia fui

Ontem, dia dos mortos, pedi licença à rotina e me estirei na poltrona. Abri um livro, mas fechei os olhos. Foi então que eu vi claramente um dos truques deste mágico feroz chamado Tempo.

Num arrasto violento, sem ordem e ritmo, puxado e empurrado, eu me senti o mais feliz dos insignificantes do Universo ao visitar todos os nadas que já fui um dia:

Fui uma das gotas de água lançadas da banheira quando Arquimedes gritou Eureka;

Fui um dos fungos que fermentaram o vinho sorvido por Alexandre Magno quando celebrou a conquista do Egito;

Fui uma das folhas de tabaco fumado por Conan Doyle no dia que escreveu o esboço do que seria Sherlock Holmes;

Fui uma das gramíneas engolidas pela ovelha sacrificada no lugar de Isaac;

Fui um dos piolhos que habitaram a crina do cavalo agredido pelo carroceiro no momento em que Nietzsche rompeu com a razão;

Fui uma das células da placenta de Cleópatra na noite que deu à luz o filho de César;

Fui um dos fios de cabelo da mulher que inspirou Shakespeare a imaginar Desdêmona;

Fui uma das botas de Napoleão quando amargava o tédio na Ilha de Santa Helena;

Fui a primeira lágrima que brotou dos olhos de Fleming quando bendisse o acaso na descoberta da penicilina;

Fui uma das pedras pisadas pelas sandálias de Jesus quando subia o caminho para fazer o Sermão da Montanha;

E quando estava envolto a uma bagunçada rede de fios capilares retorcidos, os dedos de Leonardo Da Vinci me expulsaram com violência da sua barba. Eu fui a última partícula de poeira de lá arrancada antes do último traço nos lábios de Mona Lisa del Giocondo.

Abri os olhos; fechei o livro e orei louvando todas as insignificâncias que completam a Criação.

Amém.

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