sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A última lição da Professora que não morreu com a morte!

Ela não escolheu morrer assim, consumida pelo fogo assassino de infantes. Seu projeto era de longo prazo: educar crianças e mais crianças para melhorar o país. No dia da sua aposentadoria, ela olharia para trás e diria: fiz a minha parte!

Houve momentos em que a vida lhe falou no idioma da tragédia. A mais dolorosa delas foi quando abraçou o corpinho molhado do seu filho recém-nascido que morreu na piscina. Neste dia, ela decidiu que não queria mais ouvir. Era momento de falar e ser ouvida pela vida.

E falou para a vida em mineiro. A partir daí,a vida passou a entendê-la e desfiavam diálogos matreiros. Não chegaram a conclusão alguma, talvez porque ambas - ela e a vida - jamais se entregariam uma a outra. Nem por isso desistiu de falar.

Viver dá uma trabalheira danada. É correr ou se afundar. Tem que saber respirar tristeza, expirando alegria; recolher mágoas, distribuindo perdão; chorar escondido e sorrir sem graça, enfim, dormir de olhos abertos.

É a vida?

Pois ela, a mineirinha do interior, decidiu dizer não ao fatalismo melancólico e partiu para o ataque. Sepultou o filho, encaixotou suas dores, abraçou os domingos, tornou-se mãe e resolveu falar mineiramente, educando brasileiras crianças nas creches.

Até que um dia, a vida lhe virou as costas e a esbofeteou no rosto com ingratidão. Fez surgir em seu caminho a sombra do escuro acaso. Em sua direção, um ser recendendo enxofre pelos poros do ódio atravessou-lhe o destino de educadora para lhe dar a lição final.

Só um detalhe passou despercebido pela escuridão: esta brasileira de Janaúba guardava a força do mundo em seu coração dilatado de amor. Se as águas que afundaram seu filho não a derrotaram, imagine se a fogueira da covardia o faria?

Jamais. Nunca. Definitivamente, de jeito nenhum.

Quem nunca teve medo da vida não tem o direito de morrer amedrontado!

No final da história, a Professora morreu ensinando com noventa por cento do corpo queimado e a sua última aula foi ouvida pelo mundo todo.

Heley Abreu, Professora da Creche Gente Inocente de Janaúba – Minas Gerais: a vida não lhe venceu e o seu exemplo transcende a morte !

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