segunda-feira, 23 de outubro de 2017

É sobre o que minha mãe fez de mim

Menino em plena e selvagem criancice, ainda no início da década de 70, consumia os meus dias jogando bola no asfalto perfumado de piche da rua das Garças entre a Arthur Jorge e a 25 de dezembro.

O gol era feito de pedras marcando três passos de uma a outra. Jogos memoráveis. Fazíamos campeonatos com as turmas de ruas e bairros da região. Jogava com kichute ou conga, depois de ter esfolado os dedões e perdido algumas unhas.

Mas não é sobre isso que quero escrever. É sobre minha mãe e o que ela fez de mim.

Quando, por qualquer motivo, não conseguia reunir a gurizada para jogar bola, ficava zanzando pela casa procurando o que fazer: jogava pedra mirando lá em cima da mangueira para chupar “mangaritas estateladas”, narrava jogos brincando de futebol de botão no “estrelão” surrado do irmão mais velho, palmava “bafo” com figurinhas repetidas do álbum das seleções de 1974, “estilingava” ratos de rua com pedras nervosas e assim minha meninice se distraía.

Mas não é sobre isso que devo escrever. É sobre minha mãe e o que ela fez de mim.

Final de campeonato, bola chutada foi cair no bueiro da Artur Jorge esquina com a rua das Garças. Ao aproximar-me do fosso, vi um sapo. Ele me olhou e eu retribuí com imprudente simpatia. A gurizada veio junto. O batráquio não se mexia. Nós, também. Até que o zagueiro do time adversário disse: ele está doente, vamos voltar pro jogo! Nelsinho, que depois seria prefeito daquela rua e da cidade inteira, prenunciando a vocação médica, contestou: Vamos salvar o bicho! Correu para casa, pegou um saco, cobriu o batráquio e deixou no quintal até o fim do jogo. Perdemos de 8 a 7, mas o sapo foi salvo porque estava engasgado com uma pedrinha de piche e o futuro médico-prefeito conseguiu retirar da garanta do anuro... Sapo engasgado com piche? Sim, os sapos da minha infância eram assim...

Mas não é sobre isso que preciso escrever. É sobre minha mãe e o que ela fez de mim.

Sábado à noite, meu pai nos levava para a feira que ficava na Abrão Júlio Rahe. Ele comia dobradinha. Nós, sobá e espetinho. Naquele dia, devo ter exagerado no sal. Noite avançada, acordei para beber água. Todos dormindo. Fui à cozinha. Tudo escuro. Antes de abrir a geladeira, ouvi um barulho. Vinha do lugar onde se lavava roupa. Do alto dos meus 8 anos, inspirado em Capitão Marvel, abri a porta e vi uma velhinha vestida de branco virando o corredor. Nunca mais a vi. Voltei pra cama e me esqueci da sede.

Mas não é sobre isso que mereço escrever. É sobre minha mãe e o que ela fez de mim.

Therezinha, mãe professora, foi a voz da rotina de minha infância. Ela era o meu “mantra” e nos intervalos de todas as estripulias, professava: “Chega de travessura, menino, vá ler um livro, vá...” Uma, duas, dez, centenas, milhares de vezes sempre me ordenando a “chatice” de ler um livro.

Pois é, amigo leitor, foi assim que minha mãe me fez! Hoje, graças a ela, continuo criança com 48 anos, porque com livros na mão, desengasgo sapos, exploro bueiros, vejo fantasmas e me lambuzo de mangaritas no mundo que Therezinha me deu!

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A última lição da Professora que não morreu com a morte!

Ela não escolheu morrer assim, consumida pelo fogo assassino de infantes. Seu projeto era de longo prazo: educar crianças e mais crianças para melhorar o país. No dia da sua aposentadoria, ela olharia para trás e diria: fiz a minha parte!

Houve momentos em que a vida lhe falou no idioma da tragédia. A mais dolorosa delas foi quando abraçou o corpinho molhado do seu filho recém-nascido que morreu na piscina. Neste dia, ela decidiu que não queria mais ouvir. Era momento de falar e ser ouvida pela vida.

E falou para a vida em mineiro. A partir daí,a vida passou a entendê-la e desfiavam diálogos matreiros. Não chegaram a conclusão alguma, talvez porque ambas - ela e a vida - jamais se entregariam uma a outra. Nem por isso desistiu de falar.

Viver dá uma trabalheira danada. É correr ou se afundar. Tem que saber respirar tristeza, expirando alegria; recolher mágoas, distribuindo perdão; chorar escondido e sorrir sem graça, enfim, dormir de olhos abertos.

É a vida?

Pois ela, a mineirinha do interior, decidiu dizer não ao fatalismo melancólico e partiu para o ataque. Sepultou o filho, encaixotou suas dores, abraçou os domingos, tornou-se mãe e resolveu falar mineiramente, educando brasileiras crianças nas creches.

Até que um dia, a vida lhe virou as costas e a esbofeteou no rosto com ingratidão. Fez surgir em seu caminho a sombra do escuro acaso. Em sua direção, um ser recendendo enxofre pelos poros do ódio atravessou-lhe o destino de educadora para lhe dar a lição final.

Só um detalhe passou despercebido pela escuridão: esta brasileira de Janaúba guardava a força do mundo em seu coração dilatado de amor. Se as águas que afundaram seu filho não a derrotaram, imagine se a fogueira da covardia o faria?

Jamais. Nunca. Definitivamente, de jeito nenhum.

Quem nunca teve medo da vida não tem o direito de morrer amedrontado!

No final da história, a Professora morreu ensinando com noventa por cento do corpo queimado e a sua última aula foi ouvida pelo mundo todo.

Heley Abreu, Professora da Creche Gente Inocente de Janaúba – Minas Gerais: a vida não lhe venceu e o seu exemplo transcende a morte !