sábado, 2 de setembro de 2017

Você tem um álbum de saudades?

Eu tenho e nele coleciono saudades vivas. Saudades em forma de serena e perfumada lembrança.

Está guardado em local secreto, uma espécie de cofre de consciência no qual o segredo para abrí-lo não tem letras ou número, mas sentimentos.

Nas folhas que se sucedem, passagens e ritos se multiplicam em nomes e imagens que me libertam da escravidão do esquecimento. E deles me lembro, por isso que estão vivos.

Da minha infância, um gol de pênalti do Laurinho, irmão do Carlos Alberto Ribeiro Arruda, hoje médico renomado em Uberaba, na mini-quadra de piso amarelo da casa da Dom Aquino. Laurinho se foi aos 15 anos, atropelado no centro da cidade quando ia comprar uma peça para a sua bicicleta.

Das altas notas de matemática de dois amigos do primário, Rodrigo Calijuri Mello Vieira e Marcelo Gasparini Nachif, gênios da minha geração, moços de alma bem formada, estudiosos e solidários. Suas imagens estão coladas no meu álbum com destaque. Estão no Céu, ceifados que foram pelo trânsito.

Adiante, virando a página, tem a gelatina vermelha com côco ralado que se vendia na saída da escola, o picolé de Itú dos sorvetes Maly, do guaraná Tupi, dos bijús que se compravam de um rapaz que balançava uma tábua de ferro nas ruas, dos amendoins do Morenão aos domingos, dos carnavais de clube (Bloco Cê Que Sabe), das festinhas de sábado à noite com discos de vinil, das peladinhas de futebol nas ruas com gol formado de pedra ou chinelo, dos filmes de faroeste no auto-cine, da voz da Virginie do Metrô, dos sanduíches de madrugada na Dalva ou no Topo Gigio, da ponta de costela do Ponteio, dos pastéis do Bar do Paulo, das frutas da Califórnia da 14, do Gabura, dos “comerários” de verdade...

Vivi uma Campo Grande lírica e poética.. Ela não volta mais. Não é melancolia ou passadismo. É saudade. Sem tristeza. Um simples olhar de gratidão à vida. E de homenagem ao tempo.

Hoje, sim, tem coisas boas também. Tem shoppings, computadores, cafeterias, carros automáticos, drones, gps, sushis e sashimis em toda esquina, chips e TV digital. Amanhã, hoje será saudade. Ontem é ontem; hoje está hoje. Simples assim!

Os filósofos dizem que a vida plena é a vida vivida no ato e na potência. Vou além: a plenitude só se alcança quando presente a dimensão do passado em nossa vida. Assim, evitamos erros, valorizamos acertos e corrigimos rotas.

No meu álbum de saudades, não há folhas esmaecidas, porque o tempo não o desgasta, antes purifica, educando-o na humildade de jamais pretender ser melhor que hoje. Ele é feito de passado e nunca deixou de ser presente.

E você, como é o seu álbum de saudades?

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