sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Caminhos para uma reforma política

Câmara e Senado precisam encontrar um caminho para que os melhores e mais vocacionados quadros para o exercício da vida política voltem a se interessar pela atividade pública.

O problema é que a grande e esmagadora maioria que compõe a atual legislatura é resultado de um sistema deformado, distorcido, viciado e corrompido. Desta forma, a tendência é que os atuais beneficiários do sistema viciado procurem o caminho que mais chances lhes proporcionem para continuarem a exercer o mandato. E, como já devem ter concluído, o que é bom para o vício não é bom para a virtude.

Vocês já devem ter reparado que a cada eleição, o nível moral e intelectual dos políticos cresce como rabo de cavalo... aliás, não só no legislativo, mas no executivo também. Aqui mesmo em nosso estado, houve quem construísse estradas, avenidas, estádios, bairros, parques, universidades, hospitais, escolas e viadutos. Hoje, há quem não consiga concluir 2,6% de um aquário. Mas este exemplo é apenas uma pequena ilha escondida em um imenso arquipélago.

Basta voltar os olhos para as atuais composições de legislativos pelo Brasil afora para constatar - sem muito esforço - que os espertalhões, os dissimulados, os portadores de ideias ocas, os personagens marqueteiros de si mesmos, os maus de coração e espírito, os imediatistas gananciosos, os corporativistas radicais e os fanáticos incapazes de autocrítica povoam assembleias e câmaras constituindo presas fáceis aos interesses daqueles que manipulam a opinião pública. E são presas fáceis porque, além das carências na construção moral de caráter, não têm formação teórica e humanística para resistir às investidas quase sempre não republicanas de setores que vicejam na arena política pensando em lucros comerciais e espaços de poder.

Os melhores e mais vocacionados quadros para o exercício missionário da vida política estão na iniciativa privada ou liderando jornadas à frente de entidades. Eles não veem sentido em disputar um mandato eletivo, submetendo-se às vicissitudes de uma campanha cujas regras privilegiam quem tem mais dinheiro e não quem tem mais preparo e vocação.

Aqui mesmo em MS, por que acham que o “sistema” está incentivando a candidatura do milionário prefeito de Costa Rica, senão porque para os líderes desta “arrumação” a campanha, sendo custeada pelo próprio afortunado candidato, barateará os custos eleitorais para os seus próprios bolsos? O “sistema” pensa que está usando o prefeito e o prefeito pensa que está usando o “sistema”, enfim, uma torpeza bilateral.

Por que, caro leitor, grandes lideranças, por exemplo, das carreiras de estado como o Ministério Público, Receita Federal e AGU, das profissões liberais como advocacia, medicina, engenharia, arquitetura, do meio empresarial, do terceiro e quarto setor não se lançam candidatos? Justamente porque não se sentem estimulados a participar de um sistema que, estruturalmente deformado, cortará na raiz sua pulsão natural e vocacionada de lutar pelo bem-comum.

O mais grave, porém, é que, além do desestímulo, muitas das lideranças que poderiam estar a serviço da Política com p maiúsculo estão desesperançadas porque assistem à vitória dos piores sobre os melhores, do errado sobre o certo, do vício sobre a virtude. Por isso, ficam onde estão, empregando seus esforços em um ambiente menos contagioso e estigmatizado.

O deserto de lideranças políticas no Brasil e, em especial no MS, se deve à vitória temporária do pragmatismo imediatista sobre o idealismo abnegado. Em resumo: a política como atividade remunerada prevalece sobre a política como sacerdócio sacrificial.

Entretanto, não há outra receita para curar esta patologia crônica que não a dor e a consciência da dor. Eleições e mais eleições vão resultar em frustrações e mais frustrações até o paciente não mais suportar viver e chegar à conclusão de que se não mudar, morrerá. Não vejo outro caminho.

Nenhum comentário: