sábado, 12 de agosto de 2017

Abacaxis nas ruas de Campo Grande

O problema é que eles vêm com uma faca na mão. O abacaxi, por vezes, é só o detalhe!

Pois é, amigos, hoje trato de uma questão da nossa rotina campo-grandense.

Não sei se já aconteceu com você, mas os vendedores ambulantes de abacaxi estão cada vez mais adeptos da venda corpo-a-corpo.

Nômades, colocam-se estrategicamente em algumas ruas de bairros e, tão logo observam os carros, partem para a ofensiva que faz inveja aos melhores marcadores do futebol brasileiro.

Beiços colados na porta, desfiam argumentos em defesa da fruta que vendem: doce como mel, baratinha que só, leva 4 pague 3, mais doce que açúcar, etc. e já cortam a primeira rodela com a lâmina que reflete o espanto do motorista.

Há os que, intimidados pela forma arrojada da venda, cedem aos encantos do facão e mastigam o pedaço doado com ar de aprovação para agradar ao vendedor insuflado. Quem sabe assim ele se acalma?

Há os que, simplesmente, se negam a saborear o doce naco amarelo e ainda reclamam da proximidade do ambulante que saliva no seu ouvido. Estes, minoria, franca e absoluta minoria.

Há os que, assustados, mas curiosos, um pouco glutões também, mordem não um, mas dois tabletes da rodela e, pior, não compram só por pirraça...

Há os que compram. Estes, a maioria. Também, querem o quê? Com a faca quase no pescoço...

Mas o que me intriga é o seguinte: os vendedores de laranja, os vendedores de morango, os vendedores de melancia não são como os que vendem abacaxis. Aqueles são calmos, cordatos, mansos e até poéticos.

Por que então o ímpeto ácido dos vendedores de abacaxi?

A melhor e mais surpreendente explicação me foi dada por uma amiga jornalista que passou um bocado de tempo refletindo sobre isso:

“A minha teoria é a seguinte: o morango, a melancia, a laranja são frutas bonitas, apetitosas, gostosas, portanto, esteticamente atraentes e facilmente vendáveis... já o abacaxi, pobrezinho, é mais difícil: casca grossa, cheia de espinhos, sinônimo de problema, dá aftas e tem fama de azedo... então, eles apelam mesmo, fazem tudo para vender, até mesmo com ajudinha do facão bem afiado para convencer!”

Depois dessa sagaz explicação, solidário com a fruta que não pediu para nascer como veio ao mundo, toda vez que dou minhas dentadas na áurea maciez desta pobre coitada, imagino que Deus deve ter se concentrado tanto no sabor que se esqueceu da sua aparência. Quanta injustiça!

Pensando bem, se ela fosse bonita, perderia a graça de mordê-la.

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