segunda-feira, 8 de maio de 2017

Você vive uma vida boa?

Você vive com a certeza da eternidade mas desconfia que será engolido pelo tempo?

Pobre homem que deposita ingênua confiança na certeza de sua memória ao mesmo tempo que se angustia com a possibilidade de ser ignorado pelos tataranetos.

A vida é um exercício diário de construção de sentidos. Não falo missão, mas sentido.

Quem o constrói neste caos de encontros fortuitos e pormenores decisivos?

Houve quem dissesse que somos seres condenados à liberdade, mas me pergunto que liberdade é esta predeterminada pelo tic-tac infinito de circunstâncias totalmente fora do nosso controle.

Um exemplo: minha filha levou um choque na tomada. Chamei o eletricista. Ele não veio. Fui à procura de um outro. Este nos atendeu. Na saída, ele me pediu para atender o seu filho em uma causa jurídica. O filho foi ao meu escritório. Na saída, bateu o carro. Demorou na rua. Perdeu um compromisso que tinha à tarde e foi para casa. Na sua casa, observou que o pai estava passando mal. Levou o pai ao hospital. O pai foi salvo.

Agora observem a ligação entre o choque tomado por minha filha e a vida salva do pai do eletricista. Entre o grito de dor da criança e o alívio do salvamento do idoso, quantos pormenores decisivos, quantas insignificâncias fundamentais, quantos detalhes determinantes!

E onde está a nossa liberdade?

Será que a pandemia de ansiedade não provém de uma funda, mas não confessada intuição de que somos uma espécie de bola de máquina de fliperama em que o responsável por apertar os botões é o caos?

Não seriam religião, arte, trabalho, entretenimento, enfim, criações do nosso instinto para nos permitir desfrutar da sensação de segurança no abismo que é a existência?

Enquanto isso não se desvela como expressão matemática de certeza, proponho que aproveitemos o tempo nos ocupando com a construção de um sentido que expresse gratidão ao milagre de existirmos.

Afinal, de um jeito ou de outro, chegará o dia em que não abriremos os olhos nesta vida. E se esta for a única, ao menos, teremos vivido uma vida boa. E se ela for apenas mais uma de tantas outras, da mesma forma, levaremos para a próxima um aprendizado interessante de amor à vida.

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