segunda-feira, 24 de abril de 2017

Por que a maioria das pessoas não têm simpatia pela defesa?

Sempre me intrigou o fato de a grande maioria das pessoas não fazer sequer questão de esconder a sua profunda antipatia com a defesa.

Refiro-me à defesa como valor jurídico e exercício dialético de contraposição à acusação. Já desconfiei que talvez a imprensa pudesse ter contribuído para arraigar este sentimento de hostilidade à defesa, mas hoje estou convencido de que a mídia apenas expõe o que me parece natural no ser humano.

Há uma tendência em associar à defesa um quê de dissimulação e astúcia, sobretudo quando contrastada com a acusação, esta sempre ornada de credibilidade.

Afinal, por que a defesa é vista com antipatia?
A acusação sempre vem antes da defesa. Será que a famosa “primeira impressão é que fica” condiciona psicologicamente as pessoas a se sensibilizar mais com o fato, dificultando posteriormente a revisão da crença consolidada?

Uma tese que me impressiona vem de uma frase de Schopenhauer: “A alegria do rebanho é quando o lobo come a ovelha do lado”. Sim, quando se acusa uma pessoa de ter feito um mal, um estranho sentimento de alívio recompensador toma posse de quem não foi acusado.

Coerente com este pensamento, a antipatia pela defesa pode ser explicada porque toda a energia de quem defende mexe justamente nesta “alegria que se sente quando a ovelha ao lado é comida pelo lobo”. Sim, pois a defesa é a tentativa de dissipação deste alívio egoístico que refresca a alma dos que não foram acusados, irritando o rebanho por privá-lo do sentimento de superioridade em relação à “ovelha acusada”.

Historicamente, Jesus de Nazaré, o Advogado do Amor, nos evoca esta mesma impressão racionalizada pela filosofia quando se levanta em defesa da prostituta.

Observe, caro leitor, inicialmente, a pulsão de energia vital dos homens que cercavam a prostituta com pedras nas mãos. Eles estavam em êxtase, sentindo-se superiores à pecadora, e, de certa forma, aliviados porque unidos na sensação de pertencimento a um grupo determinado. Eis que, quando o Nazareno começou a sustentar oralmente a tragédia da hipocrisia, lançando-lhes o desafio de jogar a primeira pedra, o impulso vital se encolheu, envergonhado, dando lugar a um depressivo estado de letargia e desânimo.

Acusar é sempre mais fácil, porque se alimenta da potencialidade dos nossos instintos egoísticos ligados à autoconservação. Defender é sempre mais complicado, porque é típico exercício de aprimoramento da racionalidade. Ter paciência para ouvir o outro lado com senso de equilíbrio não é tarefa para qualquer um, apenas para os mais evoluídos moral, intelectual, psicológica e espiritualmente. Estes são minoria.

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