quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O ódio perdeu a vergonha na cara

Perdeu-se o pudor de odiar. O ódio perdeu a vergonha na cara. Antes, odiava-se com certa discrição; hoje, odiar é um estilo de ser.

Odeia-se abertamente, risonhamente, sem culpa. O ódio virou uma espécie de moeda e o seu comércio está inflacionado pela oferta e pela procura.

Quem não odeia, não está com nada. Odeia-se com frases, artigos, discursos, piadas e posts.

No circuito digital, a desenvoltura do ódio tem a dimensão de status. Quanto mais se odeia, mais se é ouvido e respeitado. Na política, o ódio devotado aos políticos já foi absorvido pelos próprios políticos que, de forma oportunista, adotam o discurso do ódio, ganhando cada vez mais adeptos.

Na corrida dos afetos, o ódio está dando de lavada em todos os outros concorrentes. Amor, perdão, tolerância, altruísmo, solidariedade, respeito e generosidade têm o mesmo valor que um chiclete amassado na calçada.

Sentem-se premiados e medalhados aqueles que demonstram mais ódio. Por isso, eles treinam com afinco na esperança de conquistarem um lugar ao pódio nesta competição na qual não se admite a ira, a raiva ou outro qualquer reles sentimento passageiro e impetuoso, afinal a vitória será do odioso convicto, permanente e determinado. Intelectuais odeiam intelectualmente, mas odeiam. Ignorantes odeiam idiotamente, mas odeiam; ricos e remediados, odeiam também.

Mascando chicletes para gozar o passatempo, disparam para o mundo digital as mais virulentas manifestações de ódio contra tudo o que não toleram. E geralmente, toleram quase nada.

Comemoram a morte, celebram o sofrimento, aplaudem a dor, endossam a intolerância, prestigiam o preconceito e lançam mão de ardilosas técnicas para arrebanharem o maior número possível de adeptos à causa.

Argumentam com clareza objetivando fomentar a irracionalidade dos que não conseguem se defender por ausência de capacidade crítica, propondo uma nova escala de valores sempre permeada pela impaciência da pressa e da radicalidade:
  1. A criminalidade está alta? Então, mata-se o criminoso;
  2. Existe corrupção entre os políticos? Então, que se fulmine a própria política;
  3. O direito à defesa e ao contraditório impedem justiçamentos? Então, aniquile-se com o devido processo legal;
  4. A democracia protege os direitos das minorias? Então, fuzilamento da democracia e, se possível, das minorias. Sombrios tempos: ama-se o ódio para odiar o amor; vive-se a morte para matar a vida.
O ódio perdeu a vergonha na cara. E você ?

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