sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O mágico drible que derrubou até o árbitro

(foto de capa: Pierre Adri, segundos antes do drible histórico de Golê em Manfrini: caiu ou não?)
Ele nega, nega veementemente, mas há quem jure ter visto o lance que já se incorporou na crônica e no folclore do futebol campo-grandense.

O protagonista não é um, mas dois: Golê, o jogador e Pierre Adri (sim, ele mesmo, o nosso querido Pierrão, consagrado jornalista) como árbitro da partida.

Fui atrás de fontes. Da terra e do céu. O Nelsinho Trad confirma, o Helinho da Banca também. Marcello Trad ratifica e Carlos Jurgielewisk bateu o martelo: sim, ele caiu, desmoronou, espatifou, estatelou-se na grama sagrada do estádio Pedro Pedrossian.

Fevereiro de 1975. Comercial e Fluminense. Morenão lotado. Campo pesado porque o administrador do estádio, José Maraviesk, mandou colocar areia para “afofar” o terreno. Jogadores exaustos, torcida tensa.

De repente, eis que assim, de repente, desce ao gramado o espírito de um dos deuses do futebol.

Encarna em Golê, o meio-campista comercialino que, segundo minhas fontes, não foi um craque, mas O CRAQUE daquele jogo e de outros tantos. A bola, reverente, chega-lhe aos pés. Carinhosamente, ele amacia a pelota com o peito do pé, olhando-a com a sabedoria de um monge.

À espreita, Manfrini, o vigoroso marcador do Fluminense, prepara o bote na marcação, avança com ímpeto e sangue nos olhos. Eis que, neste momento, a arte do futebol pede licença e, sem nenhum pudor, se desnuda diante da platéia: Golê se antecipa ao marcador, curva o tronco para a esquerda, passa por cima da bola e, no totó, com o pé direito, como um contorcionista chinês, fez a bola quase camuflada passar entre as pernas do meia tricolor.

O drible foi tão surpreendente, mas tão desconcertante e enigmático que, pasmem leitores, derrubou o Pierre. Sim, o árbitro Pierre Adri. Ele caiu também. Ele nega. Ele nega veementemente, mas há quem assina em cartório que o drible de Golê derrubou Manfrini e o Pierre.

Passados tantos anos, 42 para ser exato, não tive sucesso em entrevistar o Manfrini e o Golê. O primeiro, porque não localizei. O segundo, porque repousa o sono eterno dos heróis do futebol. Pierre nega a queda. Ele jura que apenas Manfrini foi ao solo. As outras testemunhas batem o pé que o árbitro também se estatelou no gramado.

Confesso que há momentos em que acredito na versão do árbitro, mas quando vejo o Pierre andar e observo que a coluna dele pende para a direita como lembrança de uma hérnia de disco causada por algum tranco, me dá uma vontade de acreditar que ele caiu naquela mágica noite de fevereiro de 1975.

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