segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Paulinho do Rádio e a Mulher da Bicicleta

Não sei se conhecem ou se já viram os dois personagens que compõem o título deste texto, mas saibam, desde já, que são parte de Campo Grande, da nossa vida campo-grandense, das nossas manias e costumes.
Paulo do Radinho e Evelize Barbosa, a "Mulher da bicicleta"
O “Paulinho do Rádio” ou “Paulo do Radinho”, assim com maiúsculo mesmo (depois eu explico), costuma desempenhar sua performance à noite na Afonso Pena. Há tempos não o vejo. O que ele faz? Simples, ele ouve músicas no rádio colorido que carrega sobre seus ombros e dança. Ele dança. Ele dança. Ele dança. Entendem? Ele dança.

A “Mulher da Bicicleta” não é territorialista como Paulinho, mas é possível vê-la com mais frequência na Avenida Ceará pelas manhãs. Provavelmente, a caminho do trabalho, a “Mulher da Bicicleta” parece dançar um tango sobre duas rodas. Seus movimentos são clássicos e ritmados. Ela, como ele, dança. Ela dança também. Dança.

Escrevo sobre estes dois personagens da nossa época porque são nossos. Simples assim. São nossos, genuinamente filhos da nossa “Mãe Morena”. Temos tereré, sobá, mercadão, “Paulo do Radinho e a Mulher da Bicicleta”. Não são frutos do acaso, mas predestinados a romantizar nossa paisagem.

À primeira vista, parece que ambos são casos para a psiquiatria. Algo me diz, no entanto, que a chave para dimensioná-los está em outra morada: a Filosofia.

Vivemos a época do susto. Sim, o maior e mais intenso susto de toda a história da humanidade. É que, pela primeira vez, graças ao intenso e instantâneo tráfico da informação, o ser humano flagra reais imagens do que o seu “igual-semelhante” é capaz de fazer e de não fazer. O susto vem desta constatação visual. Um susto paralisante como o efeito de um eletrochoque na consciência da humanidade.

A visão apavorante do contraste humano “animalidade-santidade” nos leva a insegurança que se transforma em angústia. Contra ela, precisamos de modelos e padrões comportamentais para nos fundir. Seguir a corrente é a forma eficaz de proteção a mim e aos meus. Ser normal e igual a todos é, em última análise, uma questão de sobrevivência.

Passa o tempo e nossos medos se fundem em uma rotina que robotiza comportamentos. Todo dia, toda semana, todo mês, todo ano com os mesmos gestos, as mesmas frustrações, os mesmos prazeres, as mesmas tristezas.

É justamente nesta hora que “Paulinho do Rádio e a Mulher da Bicicleta” se tornam fundamentais.

Eles são o grito do desespero contra esta forma estéril de existência. Uma espécie de ponto fora da curva desta circularidade nauseante que reduz vidas a um movimento burocrático sem sentido. Para ser normal e estar em segurança, todos temos que vestir a máscara da face austera, séria e compenetrada do trabalho. Levá-la para casa e deixar passar as horas na gastura do mesmo mantra que inclui o cálculo exato para estar alegre durante algumas horas nos fins de semana com a família.

Contra essa permanente e devastadora “sacanagem” que o sistema engendrou sobre nossas minúsculas cabeças, surgem pessoas maiúsculas como “Paulinho do Rádio” e a “Mulher da Bicicleta”. Se todos fossem como os dois, a vida valeria muito mais a pena ser vivida. Ninguém teria vergonha de mostrar que está feliz e a loucura seria viver tristemente para estar em segurança.

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