sábado, 28 de janeiro de 2017

"Meu pai se suicidou para nos libertar do Estado colombiano", diz filho de Pablo Escobar

Sebastian Marroquin (Juan Pablo Escobar Henao) fala sobre erros do pai, de 'Narcos', sobre seu livro e documentário e adianta próximo lançamento

Há 13 anos, o arquiteto colombiano Juan Sebastian Marroquin Santos, então com 26 anos, se casou com a mexicana María Ángeles Sarmiento, 30 anos, em um hotel de Buenos Aires, capital argentina. Por ser um casamento a céu aberto, a cerimônia teve que ser autorizada pelo bispo local, Jorge Mario Bergoglio. Um momento singelo na bela capital portenha, não fosse o nome de nascimento do noivo, Juan Pablo Escobar, e o bispo viesse a ser conhecido dez anos depois como papa Francisco.

A vida de Sebastian Marroquin (nome que ele adotou legalmente após a morte de seu pai, o famoso narcotraficante Pablo Escobar, em 1993) é desde sempre semelhante a um roteiro escrito por Quentin Tarantino sob inspiração criativa de Julio Verne.

Ele conta, sem exagero, que aos sete anos teve noção de viver como criminoso, por conta da trajetória do pai, Juan Pablo Escobar Henao, o criminoso que mais dinheiro ganhou na história. Por outro lado, deixar uma mancha na bandeira colombiana difícil de ser retirada, da conexão do país com o comércio de drogas.

Há dois anos, Sebastian Marroquin lançou Pablo Escobar: Meu Pai (editora Planeta), um relato cru e sem panos quentes sobre principalmente os bastidores dos crimes cometidos pelo pai e as histórias posteriores que pouca atenção midiática despertam.

Não foi o primeiro pedido de desculpas público do hoje arquiteto, residente de Buenos Aires e que aos 39 anos continua com a garota que conheceu aos 13, e ela com 17 – que igualmente mudou o nome de batismo, Andrea Ochoa.

Em 2009, soltou o documentário Pecados do Meu Pai, onde pedia desculpas às famílias de vítimas de Pablo Escobar.

A família, formada ainda pela mãe e irmã, passaram perrengue após a morte do chefão do Cartel de Medellin. Pingaram pela África, algumas horas no Rio de Janeiro, até serem finalmente aceitos na Argentina. A mãe dele mudou o nome de Maria Victoria Henao Vellejo para Maria Isabel Santos Caballero e a irmã, Manuela Escobar para Juana Manuela Marroquin Santos.

Em 2000, mãe e filho passaram 15 meses na cadeia acusados de lavagem de dinheiro, até serem libertados por insuficiência de evidências. Marroquin jura que da grana do pai não restou nada. Algo quase impensável, dado que no auge do comércio de cocaína Pablo Escobar fornecia 80% de toda droga consumida nos Estados Unidos, com faturamento estimado em R$ 71 bilhões (US$ 22 bilhões) por ano. Sua fortuna chegou a equivalentes R$ 174 bilhões (US$ 54 bilhões), o que o tornou um dos homens mais ricos do mundo.

Parte da história está documentada no bem sucedido seriado Narcos, lançado em 2015 e que teve segunda temporada em 2016. Produzida pelo diretor de Tropa de Elite, José Padilha, e protagonizada por Wagner Moura (como Pablo, claro), colocou novo holofote sobre o traficante morto em 1993. Só que, segundo Marroquin, mostrou um retrato distorcido do que realmente aconteceu. “Se nem o time de futebol dele acertaram, imagine o quanto de erros tem ali”, diz.

Sobre Narcos, seus livros, sua história com e sem o pai e sobre seus planos de um novo livro ele falou na entrevista a seguir:

R7: O que seu pai diria sobre a história dele contada por você no livro?

Sebastian Marroquin: Diria que honrei a verdade como ela aconteceu. Ele estaria me aplaudindo na primeira fila.

R7: Você escreve com muito amor, obviamente, sobre seu pai. Ao mesmo tempo reconhece o tempo todo os crimes terríveis que ele cometeu, sem nem sequer tentar minimizá-los, o que é admirável. Aparentemente, o livro funciona como uma terapia até para você. Na sua vida íntima e diária como lida com essa dicotomia? Chega a alternar amor e ódio?

S. M.: Cresci em uma cultura que existe até hoje: honrar a seu pai e sua mãe. É muito difícil separar o limite entre o amor de seu pai e o insultos e ofensas de suas vítimas. Dele, só recebi amor, nada mais. Devo aprender a conviver com a dualidade absoluta sobre quem foi meu pai, um homem muito mau e muito bom. As duas afirmações estão corretas. Não posso odiar um homem que me criou com amor genuíno, eu seria uma pessoa muito má se eu odiasse meu pai.

R7: Uma vez que você, sua mãe e irmã saíram da Colômbia, o que permaneceu para vocês do tempo em que moravam lá? Amigos, relações familiares?

S. M.: Poucos amigos e só a familia da minha mãe que nos dá amor. A de meu pai não conta, porque trairam ele em vida e lhe venderam aos seus inimigos. É algo que não nos afeta.

R7: Seu pai chegou a ser um dos homens mais ricos do mundo. No livro você não chega de fato a explicar se houve desaparecimento completo do patrimônio da época. Possivelmente até por segurança. Mas hoje, em 2016, o que restou efetivamente do patrimônio original?

S. M.: Leu o capítulo que se chama “Onde está o dinheiro”? Ali está a resposta. O Estado colombiano, aliado à máfia, nos tirou tudo, com juízes ou com armas. Nenhuma vítima foi reparada. Eles roubaram tudo, como uma presa.

R7: Você cita brevemente a relação de Frank Sinatra com tráfico de drogas e máfia. Poderia estender um pouco o assunto? E também dizer se seu pai teve alguma relação com ele, mesmo que indireta?

S. M.: O que sei é o que está escrito no livro. De Frank [Sinatra] diziam que ele distribuía melhor [a droga] do que cantava.

R7: Você passou por muitas situações de risco e/ou ameaças de morte. Até narra uma em que estava próximo da convicção de que morreria. Isso terminou completamente? Ao menos do que você sabe.

S. M.: Nunca saberemos. Espero que a sociedade enxergue melhor quem sou: um indivíduo, um homem de paz. Não sou ameaça para ninguém. Estou fazendo o melhor que posso com os escombros que herdei de meu pai.

R7: Obviamente gostaria de saber o que achou de “Narcos” efetivamente. Pode citar também os que considera os principais erros e acertos do seriado?

S. M.: No meu próximo livro, a ser publicado ainda neste ano, dediquei um capítulo aos mais de 28 erros [de Narcos]. Parte dele está em meu post do Facebook chamado Narcos 2 e suas 28 Quimeras, que foi lido por mais de 1,36 milhão de pessoas. Se os escritores não sabem nem o time de futebol favorito de meu pai, não conhecem nada sobre ele. É uma visão muito norte-americana que nada reflete o que vivemos, sofremos e aprendemos. Com essa série estão fazendo a juventude acreditar que ser narcotraficante é “cool”.

R7: Você chegou a ser consultado?

S. M.: A Netflix preferiu comprar a versão da DEA [Drug Enforcement Administration, agência de combate às drogas norte-americana]. Não a verdade. Ofereci colaboração irrestrita antes de eles gravarem a primeira temporada, mas não se interessaram. Juravam que sabiam tudo. E agora se mostra que não sabem nada praticamente. Em meu livro se percebe que a história contada ali e a verdade foram muito diferentes.

R7: Do que você mais sente falta de seu pai?

S. M.: De seu amor e sua amizade.

R7: Qual é, de todas, sua história favorita dele?

S. M.: As que virão no meu novo livro são incríveis!

R7: Se seu pai tivesse permanecido vivo, o que acha que teria acontecido? Ou acredita que foi um caminho completamente sem volta o que ele entrou e que não existia a chance de ele permanecer vivo muito mais tempo?
S. M.: Sua familia inteira estaria morta. Ele se suicidou para nos libertar da condição de reféns do Estado colombiano. Todos nós temos data de vencimento. Meu pai só escolheu partir primeiro.
R7: Você aponta sua convicção do suicídio na morte de seu pai. Pela maneira como ele morreu e como dizia que se mataria se o tentassem captura-lo com vida, com um tiro no ouvido direito. Chegou perto de provar isso cientificamente, tem vontade disso ou não faz diferença para você?

S. M.: Meu pai está morto. Que diferença isso pode ter? Os médicos forenses disseram que fizeram um informe original da autópsia e, logo depois, precisaram modificar diante das ameaças da polícia, que não gostaram desse final que teve a história de Pablo Escobar.
R7: Existe algo que não pôde contar no livro e que pode contar agora, em outra circunstância? Ou ao menos dar uma pista.

S. M.: Meu novo livro revelará mais intrínsecas conexões de meu pai com a corrupção internacional do mais alto nível. Deixa em evidência a dupla moral em um negócio que tira vidas latino americanas na luta diária para levar droga para grandes festas nos países ricos. Não tenho dúvidas de que esse livro dará muito o que falar, quem sabe até mais que o primeiro.

Nenhum comentário: