sábado, 28 de janeiro de 2017

Impressões do parlamento federal

Muitos me perguntam o que achei de ser deputado federal.

Aqui vai uma tentativa de resposta.

Minha impressão não é definitiva, mas até onde pude estender o meu olhar sobre este período (2011-15), confesso ter presenciado um cenário de intensas e lacerantes contradições.

São quinhentos e treze disputando alimento na selva que só conhece o instinto da sobrevivência. No fundo, no fundo, ninguém conhece ninguém lá dentro, embora a cordialidade do coleguismo prevaleça.

Logo que assumi, percebi que o palco das representações era o plenário. Neste espaço, todos buscam encarnar um personagem, assim como na vida, mas com a nota especial da tribuna, do microfone e do ambiente de “big brother”.

Pecado venial: novato de primeiro mandato driblar ou tentar driblar veteranos da casa na disputa por espaços.

Pecado mortal: descumprir com a palavra empenhada.

No plenário, o microfone é a tentação. Poucos são os que sabem usá-lo; raros, os que dominam a oportunidade política de fazê-lo no momento certo: já testemunhei brilhantes pronunciamentos inoportunos, assim como discursos frágeis que repercutiram positivamente porque o instante político reclamava.

A fauna é pródiga em diversidade de espécimes, reproduzindo um ambiente extraordinariamente rico para profissionais da Psicologia: astuto encarnando matuto; ingênuo posando de velhaco; interesseiro sob a capa de idealista; autoritário na pele de democrata.

De duas uma: quem lá chega, ou quer ficar mais, ou quer algo mais (ministério, senado, etc) e sabe que não depende só de querer, porque eleição é o que os outros pensam de você e não o contrário. Daí, a profusão de personagens que se inventam e reinventam para agradar e cooptar o maior número possível de pessoas para o seu projeto político.

Esta é a contradição que dilacera o parlamento. Explico: a disputa eleitoral é renhida e exige esforços quase sobre-humanos. Vencida a competição, o vitorioso tende a se comportar de tal forma que a próxima disputa seja vencida com menos dificuldade e, para isso, assume a estratégia animal da camuflagem, modelando e adaptando o seu mandato de acordo com pensamentos, afetos e emoções dominantes no eleitorado.

Esta despersonalização do mandatário explica as mudanças radicais no comportamento de parlamentares ao longo do mandato. Uns começam esquerdistas, mas terminam de direita; outros, iniciam de centro, acabam radicais. É o instinto oportunista da sobrevivência política que gera resultados de votações inconsequentes nos parlamentos.

Torço para estar errado, mas me parece que hoje não há no país, político que coloque em xeque a sua carreira político-eleitoral em defesa de uma posição ou ideia na qual acredite e que seja contramajoritário. Não vejo no atual horizonte da política brasileira nenhum quadro que aceite colocar em risco a sua reeleição em defesa de uma causa na qual acredite e que seja impopular. O político invertebrado é um dos responsáveis pela desidratação da própria Política.


Não me parece utópico acreditar que seja possível formar lideranças políticas que coloquem acima dos interesses pessoais do mandato, a defesa do País em si. Uma das idéias seria a vedação de se candidatar em seguida à conclusão de uma legislatura. Talvez assim, o mandato seria um tempo de pensar e agir em favor do que seja melhor para o país e não para a continuação do próprio exercício pessoal do poder.

Mas esta é uma ideia para outra tentativa de resposta ...

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