quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Pênalti !

Não sou homem de um sonho só. Tenho-os aos montes. Um deles é tão singelo que faço questão de compartilhar com o leitor nestes dias de soluço no trabalho.

Tenho o sonho de bater um pênalti em uma final de campeonato com estádio lotado. De preferência, com a torcida a favor do meu time.

O pênalti, de fato, é algo sublime, quase que uma categoria filosófica autônoma. De fato, sua complexidade perpassa vários ramos do conhecimento humano: a física, a psicologia, a matemática, a geometria, a medicina e até mesmo a metafísica.

Começa pela força emocional do grito do narrador após o movimento do árbitro apontando a penalidade máxima. Há quem diga, sou um deles, que o “É PÊNALTIIIIIIII” do locutor é mais emocionante que o gol em si.

Quando um pênalti é marcado, a favor ou contra o seu time (isso é detalhe), o ritmo cardíaco galopa rumo ao desconhecido. Dopamina, adrenalina, serotonina, enfim, tudo o que é hormônio se mistura em um caldo mágico e febril.

Quando o jogador pega a bola debaixo do braço e anda em direção à área, pipocam os palpites silenciosos nas arquibancadas: "caramba, esse cara não...”, “meu Deus, ele não, ele não, esse estrume vai errar...”, “ pode deixar com ele, esse é matador”, “boa, boa, esse não erra, deixa com ele...”

Uns fazem figas, cruzam os dedos, outros fecham os olhos, muitos fazem o sinal da cruz, vários invocam a presença de parentes mortos que torciam pelo time para inspirar o batedor, mas ninguém fica impassível. Os policiais do batalhão deixam de cuidar dos torcedores para fisgar o lance, o vendedor de picolé senta ao lado da criança que ia comprar que, por sua vez, deixa de lado o picolé, gandulas se ajoelham, jornalistas param de falar, cachorros, gatos, sapos, gafanhotos e grilos entram na onda também, e, todos, sem exceção, se voltam para a sincronia dos atos.

Todas as atenções para os passos do batedor, o jeito que ele coloca a bola na marca, a postura do goleiro, o confronto de olhares, a distância da bola, a forma como se posicionam, os códigos secretos de provocação entre ambos, a parada final antes do apito e ...

Dos 47 anos vividos, devo ter jogado uns 40 de futebol, querido leitor. Pode parecer brincadeira, mas não é: minha especialidade era o voleio. Sério, o voleio, assim com bola cruzada ou lançada, e, mesmo que pudesse dominá-la para chutar com mais facilidade, optava pela acrobacia elíptica para tentar um gol mais bonito.

Voltando ao pênalti, observem como o Galvão Bueno comemorou o chute abestado do Baggio em 1994: “É TETRAAAAAAA, É TETRAAAAAA....” Pois então, afirmo categoricamente que esta tempestade emocional que se abateu sobre ele – e sobre milhões de torcedores mundo afora - se deve à ebulição hormonal que só o instituto do pênalti é capaz de provocar.

Defendo a tese de que este fenômeno sociológico – o pênalti – deve merecer a atenção dos estudiosos de todo o mundo. Sim, um sério, complexo e profundo estudo multi e transdiciplinar sobre o pênalti e suas variantes nas ciências exatas, sociais-humanas e médicas.

Talvez, deste tratado, muitos mistérios seriam desvendados, inclusive metafísicos, por exemplo, o que leva ateus e agnósticos a cruzarem os dedos desejando que o batedor acerte o pênalti????

De minha parte, após quatro décadas de observação empírica, o pênalti não é questão de sorte ou falta dela, mas de treinamento disciplinado. Em suma: nenhum goleiro pega uma bola chutada no alto e no canto com média força. Nenhum. A explicação é simples: no pênalti, nenhum goleiro pula para o alto no canto. Nenhum!

De chapa, peito de pé, bicuda, três dedos, no meio, no canto, para o alto, rasteiro, com paradinha, correndo, andando, não importa... o que conta mesmo é o seguinte: se jogo de futebol fosse o que se faz na cama com que se ama, o pênalti exitoso seria o orgasmo.

Enfim, o gol é o máximo; mas o pênalti é sublime, mágico, extasiante!!!

Fabio Trad - Professor e Advogado

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