sábado, 31 de dezembro de 2016

2017: mais humanidade na tecnologia!

Pipocos de explosões eufóricas pululam nas mídias sociais (instagram, whatsapp, facebook, linkedin, e-mails, etc., etc., etc.) como gritos de clemência às forças sobrenaturais para que a desejada, mas quase nunca alcançada, FELICIDADE, possa, enfim, se revelar nua e crua todos os dias do ano que se inicia.

Uma grande nuvem de angústia coletiva se condensou difusamente no céu destes tempos em que a incerteza do futuro se funde à ansiedade da pressa moderna. Tudo está instantâneo e, o mais grave, automático. O improviso e a espontaneidade perdem espaço para os chavões do senso comum.

Vivemos um tempo que muda mais rápido que a nossa capacidade de adaptação, gerando uma sensação de déficit de vida vivida. O mundo virtual está nos virtualizando. É preciso virar o jogo.

Comecemos agora.

A minha sugestão é que transfiguremos a nossa relação com a tecnologia. Explico: ela deve ser a nossa refém, não o contrário. Vamos romper os grilhões que nos tornam objetos da superficialidade apressada do mundo virtual.

Em vez de a tecnologia nos usar como ferramentas de consumo dos seus predicados, devemos submetê-la a nossa vontade consciente para nos “reumanizar” (se é que algum dia fizemos jus à condição humana), manipulando as suas vantagens utilitárias em benefício de uma novo modelo de humanidade. Realço: em vez de sermos programados a agir como robôs de uma lógica que nos desumaniza, precisamos tomar as rédeas da vida como titular único e autor exclusivo do nosso software existencial.

Mas do jeito que a “coisa” caminha, estamos quase como o Mario Bross, personagem despersonalizado de um roteiro programado. Nas refeições, em família ou com amigos, reina o silêncio porque todos estão plugados nas ondas cibernéticas, sem prestar atenção até no que está no prato; relações iniciadas e terminadas na dimensão virtual sem nenhum contato físico; uso das mídias sociais para dar vazão aos transtornos de personalidade com a criação de fakes (múltiplas máscaras em um rosto só).

Vamos resgatar a aventura da vida real sem negar as maravilhas da inteligência virtual.

A cultura enciclopédica dos livros não pode se reduzir às mensagens enlatadas de whatsapp; a capacidade de análise contextual das conjunturas tem que prevalecer sobre as sentenças definitivas e totalitárias dos comentários de notícias nos sites; a paciência pela digressão discursiva não deve ceder à pressa dos diagnósticos arbitrários nas frases de facebook; a profundidade das relações humanas não pode ser estuprada pelo sexo sem significado com pessoas sem nome; a complexidade da política não deve ser substituída pelo palavrório simplista dos xingamentos; a sofisticação da inteligência acadêmica não pode ser ultrapassada pela ligeireza da produção de ideias estapafúrdias.

Comecemos, pois, o ano novo, dialogando mais suavemente com a tecnologia, lembrando sempre que os criadores somos nós, e ela, a criatura. Talvez assim, teremos mais maturidade para lidar com o vazio destes tempos em que povoamos nossa imensa solidão com pessoas que nunca vimos na vida.

Fabio Trad - Professor e Advogado

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